A sobrecarga de responsabilidades recaí, principalmente, entre as mulheres. E não tem sido diferente quando os filhos precisam cuidar dos pais que estão envelhecendo. Embora as pessoas na faixa dos 60 anos estejam mais ativas e inseridas no mercado de trabalho atualmente, gerações mais antigas que não tinham a mesma expectativa de vida, e por isso não estimulavam o cérebro, estão precisando de cuidados de quem um dia cuidou. Um cenário que se torna cada vez mais presente, porém, muitas famílias acabam deixando de lado a prevenção e então vem o esgotamento físico e mental ao perceber que os seus genitores já não conseguem mais fazer tarefas simples do dia a dia, como tomar banho, levantar-se sozinho da cama ou mesmo pentear os cabelos.
Especialista no envelhecimento, a psicopedagoga Danniela Rolim Medeiros chama a atenção para a importância do cuidar de si, que vai muito além da estética, a partir dos 45 anos. “Há uma redução natural de neurônios com o envelhecimento e para retardar esse processo que afeta o raciocínio e a memória recente, os estímulos cognitivos por meio de desafios mentais, atividades físicas e socialização, são fundamentais. Principalmente quando chega o momento de cuidar dos nossos pais”, reflete. Foi percebendo essa realidade dentro de casa, que Danniela buscou um método que pudesse ajudar e promover qualidade de vida para a sua mãe e os seus sogros, todos com mais de 90 anos de idade.
Franqueada do Super Cérebro Longevidade, sede Aldeota, em Fortaleza (CE), ela vem aplicando esse método com o apoio de uma equipe multidisciplinar e já colhe resultados satisfatórios junto aos seus alunos, cujas idades variam entre 45 e mais de 90 anos. Com uma visão ampla sobre envelhecimento da população, a psicopedagoga observa que a sociedade continua valorizando mais a juventude, a produtividade e a independência, e está esquecendo de algo maior que é a gratidão, o respeito e a responsabilidade com os nossos genitores. “As pessoas mais experientes têm muito a nos ensinar também e precisam ser ouvidas, participar de algumas decisões e ser incentivadas de que são capazes de reaprender ou mesmo aprender algo novo”, sugere Danniela.
A autonomia diária, seja para as atividades básicas em casa ou externas, como fazer compras, além de pedir uma comida ou transporte pelo aplicativo, fazer uma ligação ou tirar e enviar uma foto pelo celular, contribui para preservar funções como atenção, linguagem e tomada de decisão. Como essa atenção e estímulo individual nem sempre é possível, o Super Cérebro atua para proporcionar a independência que um dia os mais velhos tiveram. “O importante é que no ambiente familiar as pessoas não queiram resolver tudo para o idoso e muito menos tomar a decisão por eles, desde que tenham condição para isso. Cuidar deles vai além de oferecer remédios, alimentação ou acompanhamento médico”, destaca Danniela.
“Na tentativa de proteger, acabamos tirando o direito de decidir da pessoa idosa. Sem perceber, estamos falando por elas, decidindo por elas e reduzindo a sua participação na própria vida”
Danniela Rolim Medeiros - Psicopedagoga
Para não ficar totalmente dependente quando o passar dos anos avança, já que o curso natural da vida é ou seria os filhos cuidarem dos seus pais, o segredo é estimular constantemente o cérebro. Danniela sugere começar com ações simples, porém, valiosas. Andar pela casa com a luz apagada e, mesmo assim, saber onde estão os interruptores, a torneira, a maçaneta da porta ou mesmo o controle da televisão; escovar os dentes ou pentear o cabelo com a outra mão; mudar de percurso ao dirigir, sem usar o aplicativo de navegação por GPS; ler um texto de cabeça para baixo. Esses são alguns exemplos bastante úteis para treinar a memória e estimular o cérebro, que podem ser completados com atividades em grupo, a exemplo dos jogos de tabuleiro, desafios de lógica e aulas de informática, bem como o soroban (ábaco japonês). Atividades essas que são monitoradas pela equipe do Super Cérebro Longevidade.
A boa notícia também vem de uma revisão sistemática com meta-análise Does the Combination of Exercise and Cognitive Training Improve Working Memory in Older Adults?, publicação da revista PeerJ, em que destaca que as atividades cognitivas combinadas com treinos físicos aumentam fatores ligados à plasticidade cerebral. Ou seja, ajudam a retardar o declínio cognitivo associado à idade. Por fim, a psicopedagoga Danniela Rolim Medeiros chama a atenção para a compreensão de que envelhecer não significa adoecer. “Muitas perdas atribuídas à idade podem estar relacionadas à falta de estímulos, ao isolamento social, à depressão ou a condições de saúde que podem ser tratadas. Por isso, é fundamental manter os idosos ativos física, social e cognitivamente”, conclui.
“Conversar, ouvir histórias, estimular a memória, promover encontros familiares, incentivar atividades prazerosas e oferecer oportunidades de aprendizado são formas de cuidado tão importantes quanto qualquer tratamento médico”
Danniela Rolim Medeiros - Psicopedagoga
Saiba mais:
- 9 em cada 10 mulheres são cuidadoras informais no Brasil (a maioria delas são filhas)
- 48 anos é a idade média dessas cuidadoras
- 9,6 horas semanais a mais são dedicadas por elas, em relação aos homens, nas tarefas domésticas e de cuidados
Fonte: PUCPR

